CONSCIÊNCIA E RESPEITO TAMBÉM SE APRENDEM NA ESCOLA
Há mais de 50 anos, Vitória ganhava uma “escolinha de artes” trazendo uma ideia inovadora: permitir a livre manifestação infantil por meio da cultura e da arte.
Depois de tantos anos, o projeto cresceu e apareceu, tornando-se a Escola Monteiro, uma instituição de referência no Estado, que oferece turmas de ensino fundamental e médio, mas mantém, na essência, valores do momento de sua fundação.
Presente em mais de 30 anos desse período, a atual diretora pedagógica da escola, Penha Tótola, afirma que o “DNA” da instituição inclui um processo educacional humanizado, que estimula a reflexão e o senso crítico, a consciência e o respeito, além de valorizar o protagonismo de aluno e professor e de incentivar a inovação e a criatividade.
“Partimos da valorização do potencial do aluno como indivíduo. Olhando para cada um, trabalhamos o grupo e o pertencimento, abrindo espaço para uma postura empática, respeitosa e tolerante com o outro”, afirma Penha.
Segundo ela, a Literatura, por exemplo, é uma das vertentes artísticas trabalhadas enquanto lugar de reflexão e de experimentação. “Por meio de obras literárias e temas escolhidos, é possível estimular o gosto pela leitura, mas também permitir o colocar-se no lugar do outro. São temas importantes para a convivência escolar e social e para a formação do indivíduo e do cidadão”, explica.
Um bom exemplo é a experiência vivida este ano pelos 4º anos do ensino fundamental. A temática do racismo, que gera uma discussão tão importante quanto necessária, foi trabalhada a partir da literatura infantil por meio de obras da escritora Kiusam de Oliveira e do rapper Emicida.
“A leitura permitiu discutir diferenças de oportunidade, as dificuldades relacionadas a padrões estéticos preestabelecidos e o preconceito, ao mesmo tempo em que trabalhamos questões relacionadas à Língua Portuguesa e incentivamos o hábito da leitura”, afirma a coordenadora da Monteiro, Juliana Poltronieri.
Ela conta que, dentro do projeto, os alunos puderam participar de um bate-papo com o professor de História da Monteiro, Patrique Santos, que abordou sua própria infância e o contexto histórico e social relacionado ao preconceito e ao racismo.
Para fechar o trabalho, um debate entre os próprios alunos sobre o que mais chamou atenção ao longo das leituras, atividades e conversas foi realizado. “Foi uma experiência de muito crescimento e aprendizado. Por meio do diálogo, do ouvir o outro – seja pessoalmente ou pela vivência literária, desenvolve-se um novo olhar, mais empático, humanizado e crítico”, considera.
No 8º ano do ensino fundamental, uma das obras adotadas em 2022 foi Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, também trabalhando, ao mesmo tempo, a linguagem, a reflexão e a necessidade de mudança.
O sumário do livro já é um convite a uma nova postura: Informe-se sobre o racismo, Enxergue a negritude, Reconheça os privilégios da branquitude, Perceba o racismo internalizado em você, Apoie políticas educacionais afirmativas, Transforme seu ambiente de trabalho, Leia autores negros, Questione a Cultura que você Consome, Conheça seus desejos e afetos, Combata a violência racial, Sejamos todos antirrascistas.
“Entendemos a arte, em todas as suas inúmeras possibilidades, como um caminho para transformar, ensinar e formar. Tanto a Literatura como a música, o teatro estão presentes no cotidiano da escola, facilitando o diálogo, criando conexões e estimulando um aprender construído a partir da humanização”, considera a diretora.
TRÊS DICAS PARA TRATAR O TEMA RACISMO COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES
CRIANÇAS
O mundo no black power de Tayó – Kiusam de Oliveira
Escrito por Kiusam de Oliveira, o livro conta a história de Tayó: uma menina preta de seis anos de idade que é cheia de orgulho de seu cabelo crespo e black power.
A partir da educação positiva recebida em casa, a garotinha enfrenta piadas e apelidos na escola com muita autoconfiança e autoestima, dizendo aos colegas frases como “vocês estão com dor de cotovelo porque não podem carregar o mundo nos cabelos.”
A narrativa de Kiusam de Oliveira recebeu o Prêmio ProAC Cultura Negra em 2012 e foi uma das obras selecionadas para o Acervo Básico da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) em 2014 na categoria Criança.
AMORAS, EMICIDA
Emicida conta uma história cheia de simplicidade e poesia, que mostra a importância de nos reconhecermos nos pequenos detalhes do mundo. Na música “Amoras”, Emicida canta: “Que a doçura das frutinhas sabor acalanto/ Fez a criança sozinha alcançar a conclusão/ Papai que bom, porque eu sou pretinha também”. E é a partir desse rap que um dos artistas brasileiros mais influentes da atualidade cria seu primeiro livro infantil e mostra, através de seu texto e das ilustrações de Aldo Fabrini, a importância de nos reconhecermos no mundo e nos orgulharmos de quem somos — desde criança e para sempre.
ADOLESCENTES
Pequeno Manual Antirracista
Djamila Ribeiro
A filósofa e ativista Djamila Ribeiro trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. Em onze capítulos curtos e contundentes, a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas. Já há muitos anos se solidifica a percepção de que o racismo está arraigado em nossa sociedade, criando desigualdades e abismos sociais: trata-se de um sistema de opressão que nega direitos, e não um simples ato de vontade de um sujeito. Reconhecer as raízes e o impacto do racismo pode ser paralisante. Afinal, como enfrentar um monstro desse tamanho? Djamila Ribeiro argumenta que a prática antirracista é urgente e se dá nas atitudes mais cotidianas. E mais ainda: é uma luta de todas e todos. Ganhador do Prêmio Jabuti 2020 na categoria Ciências Humanas.
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